Parte do livro Tornar-se Pessoa

Abaixo cap 1 do Torna-se Pessoa de Carl Rogers (PDF) Tornar-se Pessoa (Carl R. Rogers)
            Nas minhas relações com as pessoas descobri que não ajuda, a longo prazo, agir como se eu fosse alguma coisa que não sou. Não serve de nada agir calmamente e com delicadeza num momento em que estou irritado e disposto a criticar.
            Não serve de nada agir como se soubesse as respostas dos problemas quando as ignoro. Não serve de nada agir como se sentisse afeição por uma pessoa quando nesse determinado momento sinto hostilidade para com ela. Não serve de nada agir como se estivesse cheio de segurança quando me sinto receoso e hesitante.
            Mesmo num nível primário, estas observações continuam válidas. Não me serve de nada agir como se tentar manter uma atitude de fachada, agindo de uma certa maneira na superfície quando estou passando pela experiência de algo completamente diferente.             Creio que essa atitude não serve de nada nos meus esforços para estabelecer relações construtivas com as outras pessoas. Devo, todavia, esclarecer que, embora eu saiba que isso é verdade, nem sempre aproveitei adequadamente essa lição. Com efeito, parece-me que a maior parte dos erros que cometo nas relações pessoais, muitos dos momentos em que fracasso nos meus esforços para ser útil aos outros, se explicam pelo fato de que, por uma reação de defesa, comportei-me, de certa maneira, num nível superficial, ao passo que na realidade os meus sentimentos seguiam numa direção contrária.
            Rogers foi primeiro inventor de uma psicoterapia a definir sua abordagem em termos operacionais, enumerando seis condições necessárias e suficientes (paciente envolvido, terapeuta empático, etc) para a mudança construtiva da personalidade. Desenvolveu medidas confiáveis, promovendo e publicando apreciações de suas hipóteses. Rogers estava empenhado em desenvolver uma avaliação do processo: O que ajuda as pessoas a mudarem? Sua pesquisa, e aquela de seus colaboradores científicos, a resultados constrangedores para a comunidade psicanalítica. O que estou dizendo, em outras palavras, é que nunca achei que fosse útil ou eficaz nas minhas relações com as outras pessoas tentar manter uma atitude de fachada, agindo de uma certa maneira na superfície quando estou passando pela experiência de algo completamente diferente. Creio que essa atitude não serve de nada nos meus esforços para estabelecer relações construtivas com as outras pessoas. Devo, todavia, esclarecer que, embora eu saiba que isso é verdade, nem sempre aproveitei de sessões de terapia, constatou que em resposta ao esclarecimento e interpretação —as ferramentas da psicanálise —os clientes tipicamente abandonam a auto exploração; somente o reflexo de sentimentos pelo terapeuta conduz diretamente a uma maior exploração e a um novo insight. Rogers, em outras palavras, dirigiu um esforço intelectual substancial a serviço de uma simples crença: Seres humanos necessitam de aceitação, e quando esta lhes é dada movem-se em direção à “autorealização”.
               Uma segunda aprendizagem pode ser formulada como se segue: descobri que sou mais eficaz quando posso ouvir a mim mesmo aceitando-me, e posso ser eu mesmo: tenho a impressão de que, com os anos, aprendi a tomar-me mais capaz de ouvir a mim mesmo, de modo que sei melhor do que antigamente o que estou sentindo num dado momento que sou capaz de compreender que estou irritado, ou que, de fato, sinto rejeição em relação a um indivíduo, ou, pelo contrário, carinho e afeição, ou então, ainda, que me sinto aborrecido e sem interesse pelo que está se passando; ou que estou ansioso por compreender um indivíduo ou que tenho um sentimento de angústia ou de temor nas minhas relações com ele. Todas estas diferentes atitudes são sentimentos que julgo poder ouvir em mim mesmo. Poder-se-ia dizer, em outras palavras, que tenho a impressão de me ter tornado mais capaz de me deixar ser o que sou. Tornou-se mais fácil para mim aceitar a mim mesmo como um indivíduo irremediavelmente imperfeito e que, com toda a certeza, nem sempre atua como eu gostaria de atuar. 
                Tudo isso pode parecer uma direção muito estranha a seguir. Parece-me válida pelo curioso paradoxo que encerra, pois, quando me aceito como sou, estou me modificando. Julgo que aprendi isso com os meus clientes, bem como através da minha experiência pessoal —não podemos mudar, não nos podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. Então a mudança parece operar-se quase sem ser percebida. 
               Uma outra consequência dessa aceitação de mim mesmo é que as relações se tomam reais. As relações reais têm o caráter apaixonante de serem vitais e significativas. Se posso aceitar o fato de estar irritado ou aborrecido com um cliente ou com um estudante, então também estou muito mais apto para aceitar as reações que a minha atitude provoca. Torno-me assim capaz de aceitar a alteração da experiência e dos sentimentos que podem, então, ocorrer tanto nele como em mim. As relações reais tendem mais a se modificar do que a se manterem estáticas. 
                   É por isso que considero eficaz permitir-me ser o que sou nas minhas atitudes; saber quando me aproximo dos limites da resistência ou da tolerância e aceitar isso como um fato; saber quando desejo moldar ou manipular as pessoas e reconhecer isso como um fato em mim. Gostaria de ser capaz de aceitar esses sentimentos como aceito os sentimentos de entusiasmo, de interesse, de tolerância, de bondade, de compreensão, que também são uma parte muito real de mim. É unicamente quando aceito todas essas atitudes como um fato, como uma parte de mim, que as minhas relações com as outras pessoas se tomam o que são e podem crescer e transformar-se com maior facilidade. 
                Vou agora abordar um aspecto central do que aprendi e que se revestiu de grande importância para mim. Pode exprimir-se assim: atribuo um enorme valor ao fato de poder me permitir compreender uma outra pessoa. A forma como expus esta afirmação pode parecer-lhes estranha. Será necessário permitir a si mesmo compreender outra pessoa? Penso que sim. A nossa primeira reação à maior parte das afirmações que ouvimos das outras pessoas é uma avaliação imediata, é mais um juízo do que uma tentativa de compreensão. 
            Quando alguém exprime um sentimento, uma atitude ou uma opinião, nossa tendência é quase imediatamente sentir: “Está certo”, “que besteira”, “não é normal”, “não tem sentido”, “não está certo”, “não fica bem”. Raramente permitimos a nós mesmos compreender precisamente o que significa para essa pessoa o que ela está dizendo. Julgo que esta situação é provocada pelo fato de a compreensão implicar um risco. Se me permito realmente compreender uma outra pessoa, é possível que essa compreensão acarrete uma alteração em mim. E todos nós temos medo de mudar. Por isso, como afirmei, não é fácil permitir a si mesmo compreender outra pessoa, penetrar inteiramente, completa e empaticamente no seu quadro de referência. É mesmo uma coisa muito rara.                Compreender é duplamente enriquecedor. Quando trabalho com clientes perturbados, verifico que compreender o mundo estranho de uma pessoa psicótica, ou compreender e sentir as atitudes de um indivíduo que tem a impressão de que a sua vida é demasiado trágica para poder ser suportada, ou compreender um homem que se sente indigno e inferior —cada uma dessas compreensões me enriquece de algum modo. Estas experiências me modificam, tornam-me diferente e, segundo creio, mais sensível. Mas talvez o que mais importa é que a minha compreensão dessas pessoas permite a elas se modificarem. Permite-lhes assumir seus próprios temores, os pensamentos estranhos, os sentimentos trágicos e os desânimos, tão bem como os seus momentos de coragem, de amor e de sensibilidade. E tanto a experiência delas como a minha é que, quando alguém compreende perfeitamente esses sentimentos, torna-se possível aceitá-los em si mesmo. Descobre-se, a partir desse momento, que ocorrem modificações tanto nos sentimentos quanto na própria pessoa. Quer se trate de compreender uma mulher que crê literalmente que tem na cabeça um gancho com o qual os outros a arrastam, ou de um homem que julga que ninguém está tão só, tão separado de todos como ele, essa compreensão tem valor para mim. O que, porém, é sobretudo importante é que o fato de ser compreendido assume um valor muito positivo para esses indivíduos. 
                Outra aprendizagem tem sido para mim extremamente importante: verifiquei ser enriquecedor abrir canais através dos quais os outros possam me comunicar os seus sentimentos, seus mundos perceptivos particulares. Consciente de que a compreensão compensa, procuro reduzir as barreiras entre os outros e mim, para que eles possam, se assim o desejarem, revelar-se mais profundamente. 
                Existe na relação terapêutica um determinado número de processos para tornar mais fácil ao cliente comunicar-se. Posso, com minha própria atitude, criar uma segurança na relação, o que torna mais possível a comunicação. Uma sensibilidade na compreensão que o vê como ele é para si mesmo e que o aceita como tendo tais percepções e sentimentos também auxilia.
(...)
            Tive ainda uma outra aprendizagem muito importante durante o meu trabalho em aconselhamento. Posso evocá-la de uma maneira muito breve: é sempre altamente enriquecedor poder aceitar outra pessoa. 
            Verifiquei que aceitar verdadeiramente uma pessoa e seus sentimentos não é nada fácil, não mais do que compreendê-la. Poderei realmente permitir que outra pessoa sinta hostilidade em relação a mim? Poderei aceitar sua raiva como uma parte real e legítima de si mesma? Poderei aceitá-la quando ela encara a vida e seus problemas de uma forma completamente diferente da minha? Poderei aceitá-la quando tem para mim uma atitude positiva, quando me admira e me toma como modelo? Tudo isto está englobado na aceitação e não surge facilmente. Parece-me que é uma atitude cada vez mais frequente de todos nós na nossa cultura acreditar que: “Todas as outras pessoas deviam sentir, pensar e acreditar nas mesmas coisas que eu.” Todos nós achamos muito difícil permitir aos nossos filhos, aos nossos pais ou famílias terem uma atitude diferente em relação a determinadas questões e problemas. Não queremos permitir que nossos clientes ou nossos alunos tenham uma opinião diferente da nossa ou utilizem a sua experiência da maneira pessoal que lhes é específica. 
                Numa escala nacional, não queremos permitir que outra nação pense ou reaja de uma forma diferente da nossa. Acabei, no entanto, por reconhecer que essas diferenças que separam os indivíduos, o direito que cada pessoa tem de utilizar sua experiência da maneira que lhe é própria e de descobrir o seu próprio significado nela, tudo isto representa as potencialidades mais preciosas da vida. Toda pessoa é uma ilha, no sentido muito concreto do termo; a pessoa só pode construir uma ponte para comunicar com as outras ilhas se primeiramente se dispôs a ser ela mesma e se lhe é permitido ser ela mesma. Descobri que é quando posso aceitar uma outra pessoa, o que significa especificamente aceitar os sentimentos, as atitudes e as crenças que ela tem como elementos reais e vitais que a constituem, que posso ajudá-la a tornar-se pessoa: e julgo que há nisso um grande valor. 
              Poderá ser difícil comunicar a próxima descoberta que fiz. Consiste nisto: quanto mais aberto estou às realidades em mim e nos outros, menos me vejo procurando, a todo custo, remediar as coisas. Quanto mais tento ouvir-me e estar atento ao que experimento no meu íntimo, quanto mais procuro ampliar essa mesma atitude de escuta para os outros, maior respeito sinto pelos complexos processos da vida. É esta a razão por que me Sinto cada vez menos inclinado a remediar as coisas a todo custo, a estabelecer objetivos, modelar as pessoas, manipulá-las e impeli-las no caminho que eu gostaria que seguissem. Sinto-me muito mais feliz simplesmente por ser eu mesmo e deixar os outros serem eles mesmos. Tenho a nítida sensação de que este ponto de vista deve parecer muito estranho, quase oriental. Para que serve a vida se não procurarmos agir sobre os outros? Para que serve a vida se não tentarmos moldar os outros aos nossos objetivos? Para que serve a vida se não lhes ensinarmos aquelas coisas que nós pensamos que os outros deviam saber? Para que serve a vida se não os levarmos a agir e a sentir como nós agimos e sentimos? Como se pode conceber um ponto de vista assim tão inativo como o que estou propondo? Tenho certeza que atitudes como estas serão, em parte, a reação de muitos de vocês.  
              Contudo, o aspecto paradoxal da minha experiência é que, quanto mais me disponho a ser simplesmente eu mesmo em toda a complexidade da vida e quanto mais procuro compreender e aceitar a realidade em mim mesmo e nos outros, tanto mais sobrevêm as transformações. É de fato paradoxal verificar que, na medida em que cada um de nós aceita ser ele mesmo, descobre não apenas que muda, mas que as pessoas com quem ele tem relações mudam igualmente. Foi pelo menos o que mais intensamente vivi na minha experiência, e uma das conclusões mais profundas que aprendi tanto na minha vida pessoal como profissional. 
            Permitam-me expor agora outras aprendizagens que se referem, menos às relações, e mais às minhas próprias ações e valores. A primeira exprime-se de uma maneira muito breve: posso confiar na minha experiência. 
            Um dos princípios fundamentais que levei muito tempo para reconhecer e que ainda continuo a aprofundar é a descoberta de que, quando sinto que uma atividade é boa e que vale a pena prossegui-la, devo prossegui-la. Em outras palavras, aprendi que a minha apreciação “organísmica”4 total de uma situação é mais digna de confiança do que o meu intelecto. 
              Durante toda a minha vida profissional fui levado a seguir direções que pareciam ridículas aos outros e sobre as quais eu mesmo tinha muitas dúvidas. Mas nunca lamentei seguir as direções que eu “sentia serem boas”, mesmo se frequentemente experimentasse por algum tempo uma sensação de isolamento ou de ridículo. 
             Descobri que sempre que confiava num sentimento interno e não intelectual acabava por encontrar a justeza da minha ação. Mas, mais ainda, descobri que quando segui um desses caminhos não convencionais porque o sentia bom ou verdadeiro, depois, passados cinco ou dez anos, muitos dos meus colegas se juntavam a mim, de maneira que desaparecia o sentimento de isolamento. 
        Fui assim, pouco a pouco, confiando cada vez mais profundamente nas minhas reações totais e descobri que as posso utilizar para orientar o meu pensamento. Comecei a ter um respeito maior por esses pensamentos vagos que me ocorrem de tempos em tempos e que sinto como importantes. Sinto-me inclinado a pensar que essas ideias um pouco obscuras ou essas intuições me levam a penetrar em campos importantes. Confio assim na totalidade da minha experiência, a que acabo por atribuir mais sabedoria do que ao meu intelecto. Será com certeza falível, mas creio que o é menos do que a minha mente consciente isolada. (...)
                Estreitamente ligado a essa aprendizagem está o corolário: a avaliação dos outros não me serve de guia. Os juízos dos outros, embora devam ser ouvidos, e levados em consideração pelo que são, nunca me poderão orientar. Foi uma coisa que tive dificuldade em aprender. Lembro-me do choque que sofri, quando jovem, ao ouvir um homem muito ponderado e erudito, que me parecia ser um psicólogo muito mais competente e conhecedor do que eu, dizer-me que estava cometendo um erro ao interessar-me pela psicoterapia. Isso nunca me poderia levar a parte alguma e, como psicólogo, nem teria oportunidade para exercê-la. Alguns anos mais tarde fiquei perturbado ao perceber que aos olhos de alguns eu era um impostor, um pouco como alguém que praticasse medicina sem para isso estar qualificado, o autor de uma espécie de terapia muito superficial e perigosa, animado por uma vontade de poder, um místico, etc. Senti-me igualmente preocupado com os elogios que também eram exagerados. No entanto, não me senti demasiado afetado com isso porque acabei por achar que apenas uma pessoa (pelo menos enquanto eu estiver vivo e talvez para sempre) pode saber que eu procedo com honestidade, com aplicação, com franqueza e com rigor, ou se o que faço é falso, defensivo e fútil. E essa pessoa sou eu mesmo. Sinto-me feliz por receber todo tipo de testemunho sobre aquilo que faço, sejam críticas (amigáveis ou hostis) ou elogios (sinceros ou com a intenção de adular). Contudo, não posso delegar a ninguém o cuidado de avaliar esses testemunhos ou de determinar sua significação ou sua utilidade. 
            Depois do que acabo de dizer, não ficarão surpreendidos com uma outra descoberta minha que passo a descrever: a experiência é, para mim, a suprema autoridade. A minha própria experiência é a pedra de toque de toda a validade. Nenhuma ideia de qualquer outra pessoa, nem nenhuma das minhas próprias ideias, tem a autoridade de que se reveste minha experiência. É sempre à experiência que eu regresso, para me aproximar cada vez mais da verdade, no processo de descobri-la em mim. Nem a Bíblia, nem os profetas —nem Freud, nem a investigação, nem as revelações de Deus ou dos homens — podem ganhar precedência relativamente à minha própria experiência direta. Minha experiência reveste-se da maior autoridade à medida que se toma mais “primária”, para empregar um termo da semântica, pois é no seu nível inferior que a hierarquia da experiência apresenta o maior caráter de autoridade. Se leio um estudo teórico de psicoterapia, se formulo uma teoria de psicoterapia baseada no meu trabalho com clientes, se tenho uma experiência direta de psicoterapia com um cliente, então o grau de autoridade cresce na mesma ordem em que foram relacionadas as citadas experiências. 
            Vejamos uma outra aprendizagem pessoal: gosto de descobrir ordem na experiência. Parece-me inevitável procurar uma significação, uma ordem e uma lei em toda acumulação de experiência. Foi esse tipo de curiosidade, à que me entrego com muita satisfação, que me levou a cada uma das formulações que apresentei. Foi essa curiosidade que me levou a procurar uma determinada ordem no enorme amontoado de dados clínicos sobre a criança, incitando-me a publicar o meu livro The Clinical Treatment of the Problem C’hild. Levou-me a formular os princípios gerais que julgo serem operantes em psicoterapia, coisa de que dão testemunho inúmeros livros e artigos. Levou- me à pesquisa para testar os diferentes tipos de leis que creio ter encontrado ao longo da minha experiência. Levou-me à elaboração de teorias para reunir a ordem daquilo que já tinha sido vivido e para projetar essa ordem em novos campos por explorar onde poderia ser mais uma vez posta à prova. Foi assim que acabei por considerar tanto a investigação científica quanto o processo da construção teórica como voltados para a ordem interna das experiências significativas. A investigação é o esforço persistente e disciplinado para entender e ordenar os fenômenos da experiência subjetiva. Sua justificativa encontra-se no fato de ser satisfatório percebermos o mundo como algo ordenado e por que a compreensão das relações ordenadas que se manifestam na natureza conduz a resultados enriquecedores. Pude, pois, reconhecer que a razão pela qual me dedico à investigação e à elaboração de teorias é a satisfação de uma necessidade de captar ordem e significado, necessidade subjetiva que existe em mim. Em determinados momentos, dediquei-me à investigação por outros motivos: para satisfazer os outros, para convencer adversários e pessoas céticas, para avançar na minha profissão, para conquistar prestígio, e por outras razões menos nobres. Esses erros na minha capacidade de julgar e na minha atividade apenas me serviram para ficar convencido de que só existe uma razão para prosseguir a atividade científica: a satisfação da necessidade que em mim existe de encontrar uma significação. 
                Uma outra aprendizagem que me foi difícil reconhecer pode resumir-se em quatro palavras: os fatos são amigos. 
Sempre me despertou interesse que a maioria dos psicoterapeutas, de modo particular os psicanalistas, se recusassem a efetuar um estudo científico da sua terapia ou a permitir que outros o fizessem. Sou capaz de compreender essa reação porque eu próprio a experimentei. Especialmente nas nossas primeiras investigações, recordo-me da ansiedade que sentia enquanto aguardava que surgissem os primeiros resultados. Suponhamos que nossas hipóteses fossem refutadas! Suponhamos que nos havíamos enganado nos nossos pontos de vista! Suponhamos que nossas opiniões não se justificassem! Naqueles momentos, olhando para trás, era como se eu considerasse os fatos inimigos potenciais, possíveis mensageiros de desgraça. Levei sem dúvida muito tempo até me convencer de que os fatos são sempre amigos. O mínimo esclarecimento que consigamos obter, seja em que domínio for, aproxima-nos muito mais do que é a verdade. Ora, aproximar-se da verdade nunca é prejudicial, nem perigoso, nem incômodo. É essa a razão por que, embora ainda deteste ter de rever minhas opiniões, abandonar minha maneira de compreender ou de conceituar, acabei no entanto por reconhecer, numa grande medida e num nível mais profundo, que essa penosa reorganização é o que se chama aprender e que, por mais desagradável que seja, conduz sempre a uma apreensão mais satisfatória, porque muito mais adequada da vida. Assim, atualmente, um dos objetos de reflexão e de especulação que está a me tentar cada vez mais é um terreno no qual as minhas ideias preferidas não me parecem provadas pelos fatos. Sinto que, se conseguir abrir um caminho através do problema, me aproximarei muito mais plenamente da verdade. Tenho a certeza de que os fatos serão meus amigos. 
Importa agora citar uma das minhas descobertas mais enriquecedoras, e isto porque ela me faz sentir mais próximo dos outros. Poder-se-ia exprimir assim: aquilo que é mais pessoal é o que há de mais geral. 
Aconteceu-me diversas vezes que, ao falar com colegas ou com estudantes, ou ao escrever, me exprimia de uma maneira tão pessoal que tinha a impressão de estar exprimindo uma atitude que, provavelmente, ninguém compreenderia, porque era unicamente minha. Dois escritos meus podem servir como exemplo desse fato: o prefácio de ClientCentered Thera








py (considerado inconveniente pelos editores) e um artigo intitulado “Persons or Science”. Em casos semelhantes, descobri quase sempre que o sentimento que me parecia ser o mais íntimo, o mais pessoal e, por conseguinte, o menos compreensível para os outros, acabava por mostrar ser uma expressão que encontrava eco em muitas outras pessoas. Acabei por chegar à conclusão de que aquilo que há de único e de mais pessoal em cada um de nós é o mesmo sentimento que, se fosse partilhado ou expresso, falaria mais profundamente aos outros. Isso permitiu-me compreender os artistas e os poetas como pessoas que ousam exprimir o que há de único neles. 
Resta-me indicar uma lição que aprendi e que está, talvez, na base de tudo quanto venho dizendo. Ela se impôs a mim ao longo desses vinte e cinco anos em que tentei ser de algum préstimo para indivíduos com perturbações pessoais. A lição é simplesmente esta: a experiência mostrou-me que as pessoas têm fundamentalmente uma orientação positiva. Nos meus contatos mais profundos com indivíduos em psicoterapia, mesmo com aqueles cujos distúrbios eram mais perturbadores, cujos sentimentos pareciam muito anormais, a afirmação continua sendo verdadeira. Quando consigo afetivamente compreender os sentimentos que exprimem, quando sou capaz de aceitá-los como pessoas separadas em todo seu direito, nessa altura vejo que tendem a orientar-se em determinadas direções. E quais são essas direções que os seus movimentos subentendem? As palavras que julgo descreverem com maior veracidade essa direção são: positiva, construtiva, tendente à autorrealização, progredindo para a maturidade e para a socialização. Acabei por me convencer de que quanto mais um indivíduo é compreendido e aceito, maior sua tendência para abandonar as falsas defesas que empregou para enfrentar a vida, maior sua tendência para se mover para a frente. 
Não gostaria de ser mal compreendido. Não tenho uma visão ingenuamente otimista da natureza humana. Tenho perfeita consciência do fato de que, pela necessidade de se defender dos seus terrores íntimos, o indivíduo pode vir a se comportar e se comporta de uma maneira incrivelmente feroz, horrorosamente destrutiva, imatura, regressiva, antissocial, prejudicial! 
Mas um dos aspectos mais animadores e revigorantes da minha experiência é o trabalho que levo a cabo com indivíduos desse gênero, e a descoberta das tendências orientadas muito positivamente existentes neles todos, e em todos nós, nos níveis mais profundos. Permitam-me concluir essa longa lista com uma última descoberta, que pode exprimir-se de maneira breve como segue: a vida, no que tem de melhor é um processo que flui, que se altera e onde nada está fixo. É nos meus clientes e em mim mesmo que descubro que a vida é mais rica e mais fecunda quando aparece como fluxo e como processo. Essa descoberta provoca uma fascinação e, ao mesmo tempo, um certo temor. Quando me deixo levar pelo fluir da minha experiência que me arrasta para a frente, para um fim de que estou vagamente consciente, é então que me sinto melhor. Nesse flutuar ao sabor da corrente complexa das minhas experiências, tentando compreender a sua complexidade em permanente alteração, toma-se evidente que não existem pontos fixos. Quando consigo abandonar-me completamente a esse processo, é claro que não pode haver para mim nenhum sistema fechado de crenças, nenhum campo imutável de princípios a que me agarrar. 
A vida é orientada por uma compreensão e por uma interpretação variáveis da minha experiência. A vida é sempre um processo de devir. 
Penso que é possível agora ver claramente por que razão não existe filosofia, crença ou princípios que eu possa encorajar ou persuadir os outros a terem ou a alcançarem. Não posso fazer mais do que tentar viver segundo a minha própria interpretação da presente significação da minha experiência, e tentar dar aos outros a permissão e a liberdade de desenvolverem a sua própria liberdade interior para que possam atingir uma interpretação significativa da sua própria experiência. 
Se existe uma verdade, este livre processo individual deverá, assim o creio, convergir para ela. E, dentro de certos limites, parece-me ter sido isto o que vivi.

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