04 janeiro, 2021

Políticos de Granizo– dueto Beatriz Nahas e Miguel Jacó


A revolta do povo
deixa as nuvens carregadas
pelo governo o abandono
das pessoas encharcadas. 

Os trovões furiosos
E os raios desastrosos
São os reflexos de um povo descontente
Por anos sugada a energia sobrevivente.

Alguns políticos se tornam ilusionistas
trazendo com a chuva a neblina.
E assim, o povo fica cinza
como o céu, ranzinza.

Do nada ele vomita uma sandice tempestuosa
Como se fosse um barril de pólvora
independentemente do estrago pronto a ser jogado
E o povo que o elegeu se sente desapontado.

Sentindo raios, trovões e ventos, sem norte
o povo vive segundos de gris sem suporte
como se uma chuva de gelo e uma enchente
encharcassem as ruas da nossa vida intensamente.

É tanta a revolta que em forma de granizo,
O povo sofre, chora e se manifesta num grito,
Como nesse poema em que se ouve o barulho da chuva
tão forte, tão brutal e tão catártico como nunca...

Tsunami

Filme O Impossível

Vejo diante dos meus olhos
O que parece ser um pesadelo
Arrastando consigo diversos destroços
uma onda gigantesca do medo.

É esta a realidade dos seres humanos!
Ao a evitarmos, até queremos ser insanos,
mas chega uma hora que precisamos ceder,
pois algumas coisas frustrantes podem vir a acontecer.

Não tenho controle para evitá-la.
Eu até deveria para ser chamada
de super-heroína,
mas eu apenas observei a ruína.

Em meus olhos,
vejo uma onda gigantesca de destroços
E percebo a interna e externa ruína
que me fazem sentir viva.

Me vi como eu sou naturalmente.
Me senti frustrada primeiramente
quando era consciente engolida
pela onda esmagadora da vida.

Mas depois percebi um outro lado
e me deparei com o meu eu de fato
que tem limites e é humanamente impotente
de evitar passar ondas gigantescas na minha frente...

Imagem do filme "Impossível"

O Trem da Loucura


Chegou o trem da loucura
para abastecer o hospital da cura
da anormalidade que assusta a cidade
e que quer se ver longe dessa demoniedade.

Um por um desce do trem
Pensando que vão ter uma saúde do bem,
Mas só como doentes são vistos e punidos
Por não serem pela sociedade bem compreendidos.

A raiva ou a tristeza era justificada pela existência
de algum transtorno ignorando a social violência
que eram tratados dia após dia
de quem desconhecia a empatia.

Negros, alcoólatras, necessitados,
Putas, gays, aleijados,
Desciam do trem para o manicômio
Como num holocausto mórbido.

Categorizá-los por doentes mentais
Pelo que seriam cidadãos "anormais"
Foi tão perigoso e preconceituoso em vários níveis
justificando tratamentos nos primeiros hospícios bem insensíveis...

Lobotomia ou solitárias para quem não obedecer,
Dopa ou castigos físicos para quem se enfurecer
Já que deviam aceitar serem um zumbi
que não tem roupa, não come, não sente nem sorri.

Pela superlotação, as pessoas dormiam em cima das outras
Em que muitas morriam pisoteadas como trouchas
e os defuntos eram vendidos por lucro
às universidades de medicina pelo mundo.

O precário tratamento
sem considerar a subjetividade do sujeito
Provocou tanto sofrimento
E tantas vítimas mortas de todo o jeito.

O trem da loucura levou muita gente
Que assim que embarcava se tornava um indigente doente
De um holocausto que não tinha mais como sair
A não ser como morto já que a "anormalidade" só tinha valor assim...

Agora com a pandemia (e etc), ainda há os privilégios da hierarquia
quando vemos os ricos trabalhando em suas moradias
e os pobres mais afetados ao serem obrigados a saírem para trabalhar,
me questiono se esse trem da loucura não parou de circular...

Referência: A intenção do poema é divulgar o acontecido no Hospital Colônia de Minas Gerais e o livro de extrema importância de Daniela Arbex chamado "Holocausto Brasileiro" que denuncia essa realidade bem desconhecida para muita gente. Fiz a poesia com o livro do lado. Para saber mais: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/reportagem/historia-manicomio-barbacena-holocausto-brasileiro-matou-60-mil-nise-silveira.phtml

Segunda versáo mais reduzida da poesia original minha chamada `Holocausto dos pacientes indigentes

12 dezembro, 2020

Gatos Do Vizinho


Não consegui fechar 

a minha janela,

pois vi um gato lindo e fofo me encarar 

no chão da sala do vizinho através dela. 


A sala estava bem iluminada. 

Havia uma rede na janela dele bem colocada. 

Um gato cinza me percebeu primeiro

E depois um gato preto veio ligeiro. 


Eles me viam na janela ao lado

extremamente atentos e hipnotizados,

E eu devolvia o olhar com ternura,

O sentimento da nossa conexão tão pura. 


Será que me tornei 

uma gata enorme na janela

aos olhos deles e os assustei 

ou realmente eles quiseram me passar essa sensação tão terna e bela?


Só sei que ficamos uns dez minutos nos olhando 

Como se estivéssemos pelo olhar falando 

Como nos sentimos imersos na solidão 

cada um em sua casa e no seu coração. 


Me senti conectada com os gatos dos vizinhos

já que estavam numa sala sozinhos 

E eu só no meu quarto ficava me questionando 

Se era loucura essa conexão que estava experienciando. 


Quando pensava na janela fechar, 

pensava que o nível dessa atenção 

Fazia tempo que eu não recebia e continuei a olhar 

os gatos atentos a essa engraçada situação.


Eles serenamente não piscavam!! 

Senti que atentamente me olhavam 

diferentemente das pessoas e de mim nos últimos tempos 

que não se atentam às minhas necessidades e sentimentos. 


Senti que voltei às minhas origens!

Me senti natural, compassiva e sem vertigens

nem preconceitos me moldando:

Eu era a gata que eles estavam olhando. 


Com resistência, a janela eu fechei,

mas voltando o olhar para minha casa pensei 

que quando eu quisesse com a minha natureza compassiva me encontrar, 

Era só eu abrir a janela e os gatos do vizinho por ela esperar...  e encarar...


Música 

A música a seguir nao foi a inspiração da poesia. Mas acredito que tenha alguma relação com o poema já que também fala dos gatos. 



04 dezembro, 2020

Arrepio de Prazer






Quando eu sinto
Seu corpo no meu, eu suspiro.
Quando eu fito
você sem camisa, me aproximo.
Você confessa bem baixinho no meu ouvido
Com uma voz grave e rouca um desejo reprimido.

Você diz, apagando as luzes, um segredo escondido
Que gostaria que por mim fosse sentido e permitido.
Você escuta o desejo e a paixão não mais como menino
E eu cedo apreciando cada segundo de prazer
Que estamos dispostos a nos oferecer.

E assim, nada inocentes nos permitimos
Ser dois amantes sentindo
um grande arrepio
Percorrendo os nossos corpos a fio
Desde os pés a cabeça, como um rio
Fluindo, fluindo e fluindo
Cada vez mais aquecido
Como o calor do Sol a ele fortalecido.

O calor é tanto quando você entretido
Desabotoa meu sutiã que é a vilã
Para poder apalpá-los como se não houvesse amanhã.
O calor é tanto quando eu excitada
Tiro sua cueca e deixo no quarto jogada
Para poder tocá-lo como se não importasse mais nada.

O calor é tanto quando você enlouquecido
Tira minha calcinha para torná-la um Sol aquecido
E poder aproveitar o fluir do rio cristalino.
O calor é tanto que quando eu sentada,
Peço para ser beijada e saciada
contemplando o prazer sem me julgar errada.

E então aquece tudo...
Consigo sentir no fundo
O rio fervendo de modo profundo
Parecendo cada segundo nulo
Pelo prazer extremo e absurdo.

Com voz rouca e sussurrante, te digo
Inevitavelmente no seu ouvido:
"Não pare pelo que é mais sagrado a ser pedido".
Até que em mim sinto
O prazer que torna tudo inaudível...
Dentro de mim, tudo parece sensível
Até para sentir um leve arrepio...

Sentir prazer é tão fácil com você.
A testemunha é o Sol que vê
O calor fluindo, fluindo e fluindo entre nós
Como os raios solares a vós.

O sol igual a nós aquece um rio
Apenas com um simples arrepio
Formado pelo calor de um recíproco sentimento
E agraciado por um prazeroso momento.


Inspirada na música de travis scott goosebumps.


25 novembro, 2020

Os Sistemas a Rigor (corrigido)

 



Eu quero me sentir
obediente ao sistema
e/ou quero me descobrir
autêntica em cada cena?

Se eu ao sistema não valer, 
eu me igualaria a uma posse
em que eu poderia me desfazer 
com uma simples overdose. 

Se eu me permitir 
com cada experiência sentir 
o que for possível, eu não apenas serviria
para o sistema que assim me recompensaria. 

A punição ou a recompensa promissora
de cada agência controladora
podem tornar o sujeito grato compreensivelmente, mas também um mero funcionário 
por colaborar com as cobranças a si e aos outros feitas de modo tão sanguinário. 

Cobrando a si e o outro para agirem tão. mas tão corretamente
e julgando todo aquele que não é competente, 
o ser pode viver sem saber apenas para fortalecer 
os sistemas que continuarão de forma desumana a crescer...

´E claro que por trás da Igreja, do Estado, 
da escola, da economia e do trabalho,
há no fundo um objetivo e uma importância 
o que não é rebatido aqui em nenhuma instância.
Eu acredito que, em parte, os sistemas existem 
para sanarem algumas necessidades que persistem,
porém a forma que essas agências agem 
repercutem, violentamente, na cultura pela linguagem. 

Muitas pessoas tem uma obsessão
para condenar os erros numa opressão 
porque nossa cultura não nos ensinou
a olhar para qual é a necessidade que se violou. 

Quando nos comunicamos
em termos de necessidades,
a energia com a qual as utilizamos 
Pode trazer às relações maiores vitalidades.

A frieza da linguagem do certo e errado
pode tornar o vivente alienado ou revoltado
porque chega uma hora que se reproduz ou se cansa viver
a mercê do que as autoridades irão dizer. 

Quando uma necessidade não é atendida,
é possível que a tristeza seja sentida
com a frustração sendo parte de um morno luto,
o que é diferente de quando junto me culpo.

Quando nos conectamos 
à necessidade, a falamos
de uma forma mais clara 
e não mais pela agressão numa farsa. 
Mesmo assim, quando há sofrimento, percebemos
e quando há diálogo, compreendemos
que as pessoas buscam sanar suas necessidades
e quando violadas, podem mostrar uma agressividade.

Uma violência em que a cultura nos educou a nos ver como monstros
e não como pessoas preocupadas com suas necessidades sobrecarregadas nos ombros
possibilitando que a verdade do que sentimos evoquem mais a vida
numa real transformação (no ambiente e) na pessoa a ser compreendida.
 
Quando as necessidades comunicamos,
nossos sentimentos e pedidos expressamos,
a partir da empatia à serviço da conexão humana e da prática
é possível transmitirmos uma mensagem mais clara pela palavra.

A melhor motivação
para a nossa ação não é a punição
porque a vergonha e a culpa tensionam o corpo e empacam 
o prazer e o amor nos nossos atos que são os que mais nos abraçam. 

Por isso, num meio termo, é possível obedecer
ao sistema, quando há um sentido nisso fazer, 
mas eu pergunto: até que ponto vamos o defender
para que não nos anulemos como humanos até morrer?

A falta da empatia pode ser a cada dia geradora de mais ferida,
pois para nossa cultura impessoal, ela é difícil de ser desenvolvida
Já que toda a vez podemos nos reduzir em lacaios escravizados
pela violência no julgamento temido de sermos fracassados. 

O lacaio, muitas vezes, vira o "chato". 
O engraçado é aquele que tira um sarro 
porque não se leva tão, mas tão à sério
já que além do certo e errado, há um lugar de mistério. 

Nesse lugar misterioso, num meio-termo, eu te encontro
porque não é simplesmente um monstro 
quem interpreta por outro ângulo o prisma
já que, no fundo, a verdade nas distintas perspectivas é relativa. 

12 novembro, 2020

É Tarde?

          

Eu sigo junto ao relógio.

Escuto um som me dizendo que ainda é tempo.

Os segundos não param

Numa velocidade constante. 

Escuto um som que diz para eu ver

Que ainda há tempo 

Para meus sonhos na minha vida

Serem realizados ou mudados. 

Isso depende de mim. 

Se pensar que é tarde demais, 

Me lembrarei do compasso de um relógio em minha cabeça 

Me lembrando de como um segundo novo sempre vem...

Não quero me comprometer 

Porque o Sol pode explodir em qualquer momento 

E aí, vai ser um adeus temporário 

Já que o Espírito pode ter outras vidas em outros planetas

Nos mostrando que o tempo ao Espírito 

Não é um empecilho, não é um obstáculo. 

Talvez o que possa ser um obstáculo é pensarmos,

Ignorando o som do relógio na nossa cabeça marcando o tempo constantemente,

Que simplesmente é tarde demais

E que então o melhor talvez seja desistir 

porque não se é capaz de algumas coisas conseguir.

 

Mas como é possível refrear os sentimentos?  
Scripts da vida para todos não existem. 

Se existem, podem não nos trazer a felicidade. 

Não nos traz uma felicidade e sim, um alívio
 
Pensar que o tempo é infinito e aliado nosso.
 
Qual é a nossa relação com o tempo e a nossa vida? 

Como eu me vejo em cada segundo novo? 

São perguntas importantes

Porque o único "roteiro" que podemos confiar 

É o da nossa alma. 

Documento da poesia

poesia um pouco inspirada no trecho do texto comovente do 

André Sarli, 30 anos, está na maior aventura da sua vida: sair do Brasil e morar na Suíça por, pelo menos, dois anos. Detalhe: não é rico, não vem de família abastada, não tem o dinheiro suficiente e não ganhou nenhum bolsa. A única escolha: fazer o seu próprio destino e se tornar o seu próprio chefe. Formado em Direito pela USP, adora o Japão, gosta de comer pra caramba nas viagens e tem certeza de que não precisa ser rico para viajar. Ele escreve no blog Revoando | página Facebook e Instagram.

http://www.rodandopelomundo.com/2015/08/12/quem-foi-que-disse-que-voce-precisa-viver-uma-vida-normal/

 

No exato momento em que escrevo, eu estou adentrando a um túnel que não tem mais volta. Ainda que não de forma total, eu estou, pouco a pouco, abandonando a normalidade. Eu rasguei o script da vida. Sabe aquela história de que devemos estudar, trabalhar, achar um par e nos assentar? Quem foi que disse que precisa ser assim?

Essa frase me bateu como um jab no olho e um direto no queixo:

 

“Quem foi que disse que precisamos viver uma vida normal?”

 

Eu explico. Eu deveria estar na fase de me assentar. Na minha idade, acabando de completar os 30 anos, a sociedade acha que devemos estar prestes a casar ou casados e nos preparando para ter filhos. Trabalho então, nem se fala. Dizem que os 20 anos são a idade de arriscar. Os 30 são quando continuamos o que estamos fazendo.

É, amigo… Eu, apesar de estável, vou largar tudo, em nome de um sonho maluco no país mais caro da Europa. Detalhe: não sou rico e não tenho o dinheiro suficiente. Missão, teoricamente, impossível.

Logo eu que tive uma adolescência e meus 20 e poucos anos de forma atribulada e recheada de dificuldades. As pessoas dizem que eu consegui vencer na vida. Naquele ideal de que as pessoas tem de “vencer na vida” quer dizer fazer faculdade e encontrar um bom trabalho. Passei em uma universidade pública e em um concurso público. Teria tudo para me acomodar agora e nunca mais me arriscar e, só com a aposentadoria, com a mobilidade reduzida e muito menos disposição, aproveitar o que me restaria de vida para andar pelo parque às 15 horas (sem contar os finais de semana, mas eu tenho certeza que você entende a diferença).

Mas, como eu disse, estava me sentindo incompleto. O script da vida não me satisfaz.

Foi bom, sim, chegar aonde estou. Tudo o que eu tenho foi com o suor do meu rosto e anos de estudo. De forma alguma eu penso que é o motivo para parar. Eu quero algo mais.

Eu não quero uma vida normal – quero uma vida que me satisfaça intelectualmente.

Por isso eu escolhi deixar o meu cargo público e minha carreira promissora no Brasil e tentar a sorte na Suíça, com um mestrado, mesmo não tendo as condições financeiras necessárias. É loucura? Sim. Mas para vencer é preciso ter uma dose de loucura. Como eu disse, eu estou rasgando o script da vida. Para escrever o meu próprio.

Estou rasgando o script da vida. Para escrever o meu próprio.

A sociedade toda tem planos para você. A sociedade tem planos para todo mundo. Ninguém quer seguir exatamente os planos da sociedade. Ao mesmo tempo, todo mundo tem enraizado o que você deve seguir.

Sabe aquele parente (felizmente a minha família é de boa) que, apesar de não ter a vida mais regrada do mundo, vive perguntando quando você vai casar e ter filhos? E se você é mulher, é pior ainda. Te perguntam loucamente quando você vai se assentar e arrumar alguém. Como se fosse só se amarrando a um par e a um emprego, as mulheres, todo mundo de uma forma em geral, pudessem se tornar alguém, aos olhos da sociedade.

Assim, por mais que ninguém siga exatamente o script da vida à risca, eles tentam. E eles querem que você siga. Se você está solteiro, querem que arrume alguém logo. Se você está desempregado e fazendo planos para ter seu próprio negócio, querem que você se acomode e arranje um emprego para sustentar o negócio de outra pessoa. Se você quer se tornar um nômade digital, acham que isso é errado e que você tem que arranjar um emprego formal. Se você tem um emprego legal, mas a sua vida não é interessante, você tem que se acomodar e tentar continuar no mesmo caminho.

Não estou falando para você sair totalmente da vida em sociedade. Nós trabalhamos, arranjamos um par e temos um filho por várias outras razões. Muito menos estou dizendo para seguir pela ilegalidade. Estou falando das regras morais impostas pela sociedade e pela linha de pensamento de que você só é alguém se seguir este script.

O plano da sociedade para você: acomodar-se. Uma vez que você tenha atingido um status qualquer, que você sempre quis, avançar talvez seja arriscado demais. Dar um passo para trás então, mesmo que seja para pular cinco para frente, nem pensar: te chamam de burro, louco, inconsequente…


“A vida é aquilo que acontece enquanto você está fazendo outros planos.” – John Lennon
Vou falar mais uma vez: você não precisa seguir o script e ser de todo normal. Você pode até deixar toda a sociedade feliz, mas será que ficará contente consigo mesmo?

05 novembro, 2020

4e Leão (O Leão)



Quando não mostro minha vulnerabilidade,
Logo penso numa possibilidade
De me assemelhar a um leão
Que sai para caçar valente de coração.

Para que sua família sobreviva
E para que possa se alimentar da carniça,
O Leão se comporta aparentando uma fortaleza
Sendo visto como a realeza da natureza.

Mas no fundo, é como qualquer animal
Que tem também seu lado emocional:
Uma sensibilidade que esconde ao seu favor,
Quando uma presa chega com o seu calor.

A sociedade pede que esconda meu desespero
De não conseguir cumprir expectativas por medo
E eu permito ser leão,
Mesmo que corroa o meu coração.

22 outubro, 2020

Autossabotagem

Minha mente insiste
Em me deixar triste
Pensando coisas terríveis contra mim
Como se não conseguisse fazer nada assim. 

Sinto uma melancolia
Que arrasta meu dia
Ao ouvir uma suspeita
De que estou presa.

Meus medos estão descontrolados
Me prendendo em planos não realizados.
A ideia de ser tudo impossível
Me prende em uma corrente invisível.

Ou talvez esteja num cárcere horripilante
Ouvindo vozes exaltadas aterrorizantes
Contra meu próprio mundo.
Me sinto num breu imundo!

Ou talvez esteja amarrada
Por cordas alongadas e apertadas
Ou quem sabe por camisas de força
Para conter minha vontade louca.

Medos traiçoeiros como venenos
Me traem dos meus objetivos
Me empurrando num depressão
Que nunca foi minha intenção.

Preso meu coração
Numa densa escuridão
Onde deprimida não mais consigo
Ver um futuro por essa trava comigo.

Até o dia que eu decidi sair
De casa para sentir
A brisa da manhã do interior
E relembrar da simplicidade do amor.

Amo olhar o verde da grama
E o azul do céu que chama,
Pois a vida é muito mais do que os tempos predefinidos
Que gostariam mais é que sejam naturalmente sentidos.

Viajando por um tempo eu consigo sentir
Que a vida tem tantos rumos a seguir,
mas mesmo assim me questiono como posso me libertar
da minha mente que não quer parar de se autossabotar. 

Tinta da Vida


A menina que quer morrer
Repensa ao se ver
Num quadro pintada
Pela mãe amada.

A menina que quer morrer
Apenas por casualidade perecer
Porque não consegue vislumbrar
Um futuro seu em que sua mãe vá se orgulhar.

A menina que quer morrer
procura perceber
Na vida que apenas está no início
E tem tantos rumos desde o princípio.

Ela se lembra do quanto sua mãe se sacrificou
E no tanto que por ela se dedicou e trabalhou.
Por isso, nunca se mataria de verdade,
Mas desejar morrer, sim as vezes ela sente vontade.

A menina que quer morrer
Se sente tão culpada por esse querer
Já que não gostaria que fosse sentida a ingratidão
em quem ama e tudo agradece de coração.

A menina se emociona diante da pintura
Que sua mãe a dedicou com tanta ternura.
Mesmo com todas as dificuldades e inseguranças,
A menina procura vislumbrar seu futuro com esperanças.

A sua mãe pinta o seu retrato
E a menina só chora ao pensar que se o fizesse de fato,
Sua mãe choraria ao olhar tal pintura
E isso não faria sua mãe passar nunca.

Só restaria da menina esse retrato
Junto com um lamento tão grande e pesado
Que chegaria a doer na mulher que mais ama
E por ela, no possível, ela vai reanimando a chama.

A menina que olha sua mãe amada
pintar seu retrato determinada
Diz a si mesma como quer viver
Com a mesma dedicação por sua amada mãe reconhecer.

Cada tinta do seu retrato
Compõe a vida no quadro
Que procura chamar a sua vitalidade
Com muito carinho e amorosidade.

A menina chora tanto, tanto, tanto agora!
Uma grande emoção ela põe para fora
Porque agradece por cada tinta que a trouxe à vida de volta
Em busca de escrever a sua história como a sua mais fiel devota. 

Pássaros Na Cabeça

wlodzimierz kuklinski (Polônia)

Importante: Essa poesia trata mais das questões biológicas e neuroquímicas da depressão. Em cada poema, eu falo de um aspecto específico. 

Pássaros na minha cabeça me chamam
Da janela, com prazer, para mim cantam,
Mas como explico que assim deprimida
Não tenho vontade de ir até a esquina?

Não tenho vontade de fazer
Coisas que antes tinha prazer.
Não tenho energia para viver
Muito menos sair de casa e comer…

Se sou inútil, culpada,
Horrível e fracassada,
Para quê insistir em sair de casa?
Vamos, pássaros! Não fiquem sem responder nada!

Se sou desconcentrada,
Boba e um tanto lesada,
Para quê eu vou insistir em fazer companhia
A pássaros, produtos de uma mera fantasia?

Se sou tão chata, alterada,
Insuportável e fragilizada,
Para quê vou insistir se só recebo visita
De pássaros da minha imaginação esquisita?

Por mais de duas semanas, como nesse instante,
Sinto uma tristeza predominante
Que me faz não ter vontade de sair da cama
E não conseguir ter confiança por quem me chama.

Logo, insultos, agressões e xingamentos
Geram em mim profundos sangramentos
Porque sou tão errada que devo morrer
Já que sou um peso para quem não suporta mais me ver…

Os pássaros assobiam no meu olvido.
Eles são a minha voz interior persistindo
Em procurar ouvir minhas necessidades,
Sentimentos, angústias e enfermidades.

Mal sabia que, em meu cérebro,
faltava noradrenalina ou serotonina.
Mal sabia que, sem mindfulness ou remédio,
A região continuará sendo hiperestimulada das sensações negativas.

Mesmo que tentasse sair de casa e trabalhar,
O desânimo e a desesperança iriam continuar
Porque a depressão é uma doença no cérebro a ser tratada
E não frescura, imoralidade ou fraqueza a ser ignorada.

Tanta gente e eu mesma me dizia:
“Pare de tanta preguiça!”
E eu me condenava, mas não me movia… não conseguia!
Simplesmente porquê não conseguia… muito menos me entendia…

Os pássaros em minha mente
Sobrevoam como a minha luz vital sobrevivente
Me dizendo pela profunda tristeza
Que alguma necessidade minha eu ignorei com tamanha destreza.

Esses pássaros me convidam gentilmente
A um processo de autoconhecimento individualmente
Assim que conseguir me aventurar em mim
Para buscar qual necessidade eu desprezei assim.

O sentimento de tristeza indica
Uma necessidade não atendida
Como por exemplo, não compreender o meu tempo num tédio
Nem minha necessidade de pedir ajuda e, se necessário, tomar remédio.

O remédio ajuda a repor 
os neurotransmissores responsáveis pelo prazer e animação rotineira 
já que o cérebro não consegue produzir pela tamanha dor
e por isso, a depressão não é uma tristeza passageira. 

Acompanhada de uma boa terapia e da humilde compreensão
Da realidade do meu aprendiz coração,
Aliviarei a cobrança excessiva desse desespero traiçoeiro
Quando eu ouvir o meu sentimento primeiro…

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